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sábado, 27 de junho de 2009

Vinicius em cada um

Por Alexandre Vasconcellos & Yana Campos




Essa matéria contém depoimentos sobre o significado de Vinicius de Moraes ainda hoje na vida das pessoas, que foram abordadas na Facha (Campus 1) e arredores. No entanto, fomos pegos de surpresa pela opinião de um menino de rua na rua Farani, que não conhecia o Poetinha, mas curiosamente se interessou em participar.

Um bar muito além do cardápio

Combinação perfeita de gastronomia, boemia e muitas histórias.

Por Raquel de Póvoas, Victor Deveza, Cristiane Campos, Marcos Renkert



O “Garota de Ipanema” não é um bar apenas conhecido por servir deliciosos petiscos de frutos do mar, ele é berço e faz parte da história da música de mesmo nome que ainda hoje é uma das mais ouvidas no mundo. Antes mesmo de ganhar o seu nome atual o bar já era freqüentado por personalidades como Vinicius de Moraes que, ao observar uma bela moça passar todo dia em frente ao bar para ir à praia compôs “Garota de Ipanema”, música esta que emprestou seu nome ao então chamado bar Veloso.


Foto: Marcos Renkert

Adonias Teixeira (foto acima), garçom de longa data do “Garota de Ipanema”, em uma conversa para o Blog da Banheira, diz que Vinicius de Moraes costumava chegar antes do bar abrir, por volta das nove e meia da manhã e que sempre estava rodeado de ilustres amigos como o presidente do Hospital de Ipanema, oficiais da


Marinha e cantores, dentre os quais Tom Jobim, Miúcha e Chico Buarque.Pessoa bem-humorada, afirma Adonias, Vinicius almoçava com os funcionários e não hesitava em falar com seus admiradores.”O que consumia era por conta da casa e seu forte era mesmo Whisky”, comenta o garçom descontraído. O bar naqueles tempos não era muito grande.Hoje ele ocupa a esquina da rua Vinicius de Moraes com a Prudente de Moraes.

Fachada Bar Garota de Ipanema
Foto: Marcos Renkert

O bar recebe muitos jornalistas, brasileiros e estrangeiros, que vão a busca de relatos sobre Vinicius, a garota de Ipanema Helô Pinheiro e outras pessoas que marcaram a história da música brasileira.Cheio de fotografias, artigos de jornal e outros objetos que remetem à Bossa Nova, o “Garota de Ipanema” ainda conserva a mesa onde Vinicius sentava para beber com os amigos e compor suas músicas.



Mesa onde Vinicius de Moraes costumava sentar
Foto: Marcos Renkert

Não é de se estranhar que o bar seja freqüentado por turistas do mundo inteiro, afinal, nele os clientes podem somar o prazer da boa culinária brasileira à oportunidade de voltar no tempo e reviver um pouco do que foi a grande época da música e da poesia do nosso eterno “Poetinha”.


Helô Pinheiro: A consagrada Garota de Ipanema por Vinicius e Tom

Por Carla Gonçalves e Flavia Aloy



E foi uma moça de apenas 15 anos cheia de luz e de graça, do tom de pele dourada, que passava diariamente em frente ao bar Veloso, Ipanema, que fazia os poetas suspirarem.Esta era Heloisa Eneida Menezes Pinto, que fazia ambos se derreterem com o balanço de seu andar. E durante 3 anos, os compositores a observaram de longe, quando passava pelo cruzamento de Montenegro e Prudente de Moraes, ao encontro da praia de Ipanema.

Foi assim, mediante à olhares discretos entre uma cervejinha e outra, que a garota, mais conhecida como Helô Pinheiro, se tornou a musa de inspiração da canção “ Garota de Ipanema” (clique e assista). Esta canção, que a princípio não tinha musa, se chamava menina que passa, mas a letra nada lembra a garota “...vinha cansado de tudo, de tantos caminhos, tão sem poesia, tão sem passarinho, com medo da vida, com medo de amar...”. Somente com surgimento de Heloisa, que a letra ganhou melodia, brilho sendo reproduzida de forma tão fascinante. Foi em sua casa em Petrópolis, que Vinicius mostrou a letra à Tom, que a musicou na sua residência na Barão da Torre.

Finalmente em 65 a canção foi lançada. Para eles, Helô era o paradigma do broto carioca, tornando – a conhecida pelo mundo inteiro como a querida Ipanema, porem esta, só descobrira 2 anos e meio mais tarde, já com namorado, que teria sido a fonte de inspiração da canção. “ Para ela fizemos, com todo o respeito e mudo encantamento, o samba que a colocou nas manchetes do mundo inteiro” disse Vinicius. Assim, Garota de Ipanema ultrapassou fronteiras, ganhando a atenção mundo a fora, tornou-se a mais famosa da bossa nova e MPB sendo esta uma das canções mais executadas do planeta.

Sua admiração foi tamanha, conquistou ícones da música e foi interpretada por Frank Sinatra, Madonna, e a diva do jazz Ella Fitzgerald, alem do próprio Tom e João Gilberto.“ Se não fosse Garota de Ipanema, que fiz com Vinicius e gravei com Sinatra, a essa altura eu estaria fazendo jingles para a televisão e pagando papagaio em bancos” disse Tom , referindo-se a seu maior sucesso comercial.
A canção foi gravada cerva de 40 vezes no Brasil e nos Estados Unidos.

Com o sucesso de Tom e Vinicius, outros parceiros entraram em cena, porem a amizade durou até a morte do poeta em julho de 1980 “ dizem que é comum a briga entre parceiros. Acho que eu e Vinicius quebramos esse tabu. Há anos fazemos muitas concessões. E, quando chegamos à conclusão que alguma coisa não pode ser, nenhum dos dois se aborrece.” Concluiu Tom Jobim.

Números e conquistas à parte, o que valeu foi a importância que teve da “menina que vem e que passa”. “ O cara para de tomar um chopp e olha para a garota, não é? É claro que quando a gente fez, não pensou em nada disso. A gente só via a garota passar, o Vinicius era casado, eu era casado e a garota que passava por ali, era muito jovem”. “Nem cantávamos para ela quando passava, primeiro porquê não podia tocar violão no botequim (..) Nossa atitude era bem discreta. Inclusive, a garota era filha de um general do SNI. Mas nós não sabíamos disso. Nós estávamos ali por causa do chopp, não é?”, lembrou Tom em uma entrevista.

E foi assim, em um simples bar, entre gelados chopps, que visualizaram a menina que era um misto de flor e sereia, cheia de luz e de graça que consagrou e deu a origem à apoteose poética e musical do voyeurismo de boteco carioca “Garota de Ipanema”.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Vinicius através do tempo

Por Mauricio Sangama

Levando em consideração os vinte e nove anos da morte do multiartista Vinicius de Moraes e movimentos comerciais de viés mais filantrópico que lucrativos chamados sebos, verifiquei a necessidade de fazer um estudo mais aprofundado no que se pode entender de literatura que é consumida hoje em dia e o que pode ser considerado instrumentos de comunicação atemporais.
Fazendo uma pequena pesquisa a partir de um questionário simples foi visto que a relevância sine qua non das mais diversas obras relacionadas do artista, se tornaram mais que um lugar na estante e sim uma moeda de valor cultural para qualquer estabelecimento que disponibilize cultura e saber para os sedentos de obras antigas e valores em papel físico que não são tão mais valorizados pelos mais novos leitores de obras virtuais.

Foto: Mauricio Sangama

Apesar de passadas quase três décadas desde sua morte, inúmeros produtos como filmes, videografias, textos relidos e afins se misturam com suas obras antigas, gerando uma modernização para o público jovem e antenado que consome música e poesia em geral. O público que vai a busca das publicações em questão, não é apenas o contemporâneo do artista, pessoas acima de 60 anos, mas também leitores e curiosos que nasceram bem depois da morte do poeta, leitores de até 30 anos. Os materiais mais procurados pelos que frequentam os sebos vão de antologias poéticas até pequenas resenhas críticas do autor, rasgadas, mofadas e claro, usadas, condições mínimas necessárias para que estejam em um sebo.

Cheguei ao Lenorado da Vinci, conceituado sebo entre o grande número de iguais no centro da cidade do Rio de Janeiro, este já foi capa de revista, já mereceu notas em jornal e um sem número de matérias relacionadas. Conversando com um pouco com o dono do sebo, Silvio Guimarães Nascimento e descobri que livros e assuntos de décadas e até de séculos passados ainda são de interesse comum de muitos leitores jovens.

Importância de Vinicius de Moraes na cultura nacional

Silvio Guimarães Nascimento, proprietário do Leonardo daVinci
Foto: Mauricio Sangama

Em relação a Vinicius de Moraes ele declara:
“Vinicius tem total importância na história cultural brasileira, foi um homem que gerou conceito dentro das mais diversas artes, seja ela musical, literária e até teatral, além de navegar pelos mares políticos como diplomata.“Seus livros são do tipo que não ficam parados nas prateleiras; é muito complicado achar um livro agora para apresenta para você, existem encomendas de livros de mais de trinta anos de idade.” E conclui: “Gosto de suas obras porque refletem o sentimento e o amor, dificilmente lemos com tanta intensidade um autor brasileiro falar sobre amor nos dias modernos.”

O legado de Vinicius vai muito além de sua fama; suas obras e releituras, ultrapassou a linha do tempo e da razão e chegou ao século XXI com o fôlego de um jovem poeta. Se fizer uma pesquisa por grandes casas multimídias, o interessado poderá encontrar mais de 120 produtos relacionados ao artista que vão desde um simples CD de música, gravado de um LP de lançamento ano 1965, até álbuns completos, fornecendo DVDs, CDS e um livro. Sua família também sustenta uma pequena loja de antigas novidades em Ipanema, casualmente, na rua batizada com seu nome onde também se localiza o bucólico restaurante também com seu nome, onde, segundo reza a lenda, nasceu a música “Garota de Ipanema”.
Não há dúvidas, Vinícius vive!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Banheira FM

Por Rosbergue Alves da Rocha

A música sempre esteve presente na vida de Vinicius de Moraes. Sua avó materna e sua mãe eram pianistas, seu pai, além de escrever poesia, tocava violão. Em 1953, Vinicius compõe seu primeiro samba, “Quando tu passas por mim”, criando letra e música. Em Paris, em 1955, compõe uma série de canções de câmara junto do maestro Cláudio Santoro.

Mas é em 1956 que ocorre o encontro que viria a mudar os rumos da música popular brasileira: Vinicius convida Antonio Carlos Jobim para criar a trilha sonora de sua peça “Orfeu da Conceição”, dando início à parceria que ainda incluiria João Gilberto e daria origem à bossa nova.

Todos nós sabemos que Vinicius deu uma grande contribuição para nossa música brasileira. Pensando nisso, resolvemos contar um pouco sobre a sua trajetória no mundo da música, através de um programa radiofônico. O objetivo é contar uma história envolvendo o “Poetinha” e a música, passando pelos grandes sucessos de Vinicius.



Clique play e escute e Banheira FM. Caso não consiga ou queira escutar depois, clique aqui para download.

Locução de Rosbergue Rocha - Colaboração de Flávia Martins.

Poeta, Moça e Violão

Por Fernanda Venâncio e Soraya Moreno
Foto: http:\\www.biscoitofino.com.br

CD relançado pela gravadora Biscoito Fino

Desde que gravaram o primeiro disco juntos, em 1969, até o último, dez anos depois, Vinicius de Moraes e Toquinho fizeram 96 músicas e gravaram 19 discos. No início de 1973, época em que Vinicius se considerava ‘‘o branco mais preto do Brasil’’ e afirmava ser Toquinho ‘‘o fenômeno mais impressionante como violonista que conheceu no Brasil depois de Baden Powell’’, a dupla vivia uma fase das mais criativas. Foi quando fizeram um show especial com enorme sucesso no Brasil e no exterior. Estreou no dia 27 de fevereiro no Teatro Castro Alves, em Salvador, e se chamou Poeta, Moça e Violão. Dividindo o palco com eles, a cantora Clara Nunes, a grande sambista brasileira que, como Toquinho e Vinicius, era empresariada por Benil Santos, idealizador de Poeta, Moça e Violão.

Em depoimento concedido ao blog "Banheira do Vinicius", o experiente baterista Mário Negrão nos conta com detalhes como era dividir o palco com o “Vina”, Clara Nunes e Toquinho nesta turnê incrível. E nos presenteia com uma cópia do manuscrito que o poeta lhe escreveu.

“Foi incrível trabalhar com o Vinicius, eu, muito jovem tive o privilégio de participar dessa turnê. O Vina, como era carinhosamente chamado pelos músicos, era muito natural conosco. Não existia essa de estrelismo. Ele não precisava disso. Ele já era o Vinicius de Moraes. Este manuscrito ele gentilmente me deu, em nome da nossa amizade em abril de 1973, num show que realizávamos em Porto Alegre", conta Negrão.


Manuscrito do poetinha para seu colega de palco, o baterista Mário Negrão

Tom, Vinicius, Toquinho e Miúcha

Por Camila Camacho e Diego Kengen


Fonte: http://www.discosdobrasil.com.br/

Tom, Vinicius, Toquinho e Miúcha conseguiram transformar o enorme palco do Canecão numa aconchegante sala de visitas durante quase oito meses de apresentações que alcançaram limites de público e permanência jamais igualados até hoje naquela casa de espetáculos.

O show foi feito em tempo recorde. A idéia nasceu a partir do LP "Miúcha & Antônio Carlos Jobim", lançado no começo do ano de 1977. Em cima disso, o Mário Priolli, dono do Canecão, chamou Tom e Miúcha para fazerem um show lá, e convidou o Aloysio de Oliveira para cuidar da organização e da direção. O Aloysio mandou logo um recado, que achava uma loucura fazer um show só com Miúcha e Tom, baseado no sucesso do disco, que por mais sucesso que o disco fizesse, era um sucesso baseado na Zona Sul, e o Canecão é uma casa muito grande. Surgiu então a idéia de convidar Toquinho e Vinicius, e juntar as duas duplas. A preparação do show foi feita em duas semanas. Toquinho explica como foi desenrolado esse novelo: "Foi uma grande idéia a de formar as duas duplas, por todas as interligações que apresentavam. Aí, começamos a nos reunir para resolver o show, e aconteciam coisas impressionantes, uma verdadeira comédia. Então marcávamos encontro no Plataforma, grande churrascaria do Rio de Janeiro, para falar sobre o show. Começávamos a chegar às duas da tarde, mais ou menos. Aperitivos, vinha o almoço, e as bebidas continuavam. Ficávamos tocando violão, e só. Saíamos às sete da noite, e não se decidia nada. O Vinicius ficava na dele, não se intrometia. Para ele, tudo estava bom, tudo era lindo. Eu vi que não ia dar, pois ninguém entrava direto no assunto. Um dia, então, deixei minha posição bem clara, que Tom cantasse Corcovado, Garota de Ipanema, Água de beber, suas coisas mais conhecidas".

O show deu orgiem a um do LP – lançado pela Som Livre e gravado ao vivo, contendo os melhores momentos daquele show no Canecão. Tudo o que se fazia naquele palco não tinha nenhuma preocupação de inovar, surpreender ou espantar. No entanto, embasbacava. Havia ainda na retaguarda uma tremenda orquestra de sopros, metais e outros sons regida pelo maestro Edson Frederico. Integrando todo esse grupo musical, um coro feminino: as outras três irmãs Buarque de Holanda, Beth, filha de Tom, Aninha, que depois se casou com Tom, Olívia Hime e Georgiana, filha de Vinicius. "Tudo foi uma festa, desde o primeiro ensaio até o último dia. O Canecão lotado o tempo inteiro. Além disso, houve momentos de "canjas" antológicas.", conta Toquinho.

Claro que esse show não se limitou ao Canecão. Em fevereiro de 1978, realizou-se uma temporada de um mês em Mar del Plata, na Argentina. Depois, uma semana no Anhembi, em São Paulo, e, finalmente, o percurso pela Europa: mais de dez dias no Olympia de Paris, sendo que três dessas apresentações contaram com a participação de Baden Powell; uma noite no Palladium de Londres e o giro pela Itália, além de gravarem na Suíça um especial para a TV, considerado o melhor especial do ano. O espetáculo de despedida deu-se no dia 11 de outubro de 1978, em Firenze.

domingo, 21 de junho de 2009

Entrevista Exclusiva com Toquinho para Banheira


Foto: Site oficial Toquinho


Por Barbra Richard, George Barros, Mariana Camacho e Paloma Sarmento


O paulistano Toquinho (Antonio Pecci Filho) foi um dos muitos parceiros musicais do carioca Vinícius. Durante onze anos os dois compuseram mais de 100 músicas, gravaram 25 discos e se exibiram em mais de 1000 shows pelo Brasil, Américas e Europa. Apesar da diferença de idade (33 anos), a parceria entre ambos foi de muita afinidade e compreensão, sendo, talvez a parceria mais duradoura que Vinícius manteve em sua carreira.

A dupla foi pioneira na produção de trilhas sonoras para novelas de televisão como "O Bem Amado" para a TV Globo nos anos 70, além gravar dois discos de músicas infantis, inspirados em alguns poemas do livro de Vinícius, Arca de Noé.
Cantor, compositor e instrumentista, Toquinho compôs mais de duzentas músicas, muitas vezes em parceria com grandes nomes da MPB, como Jorge Benjor (Que Maravilha), Paulinho da Viola (Caso Encerrado) e Chico Buarque (Samba de Orly e Samba pra Vinícius).

Em entrevista exclusiva, por email, para A Banheira do Vinícius, Toquinho nos brindou com algumas histórias da sua parceria com o poetinha.

BANHEIRA DO VINICIUS: O início da parceria entre vocês, de acordo com diversas fontes, é controverso. Algumas dizem que o encontro se dá na Itália, durante seu exílio com Chico. Outras, em período anterior a este, em que sua mãe recebeu um telefonema do próprio Vinícius. Como se deu este primeiro contato afinal?
TOQUINHO: Nem um nem outro. Esse e outros episódios sobre minha carreira podem ser encontrados de uma forma autêntica no livro “Toquinho - 40 Anos de Música”, escrito por meu irmão, João Carlos Pecci, com relatos que juntam depoimentos meus, na íntegra. Em 1969, no último mês de minha permanência na Itália, ao lado de Chico, participei da gravação de um disco (“La vita, amico, é l’arte dell’incontro”) em homenagem a Vinicius de Moraes. Acabei gravando esse disco nos últimos dias em que fiquei por lá. O Bardotti (Sérgio Bardotti, produtor italiano) me chamou para completar o que já tinha sido feito com Sérgio Endrigo, o poeta Ungaretti e o Vinicius de Moraes. Faltava um violão que servisse de fundo para algumas poesias e algumas músicas. Eu fiz então esse alinhavo musical com meu violão. Voltei para o Brasil. Até aí, tinha estado com Vinicius umas duas ou três vezes, de passagem, um cumprimento, nem conversamos nem nada. Mas claro que ele já sabia de mim. Alguns meses depois, ao ouvir aquele disco, Vinicius ficou impressionado com os solos de violão. Por coincidência, havia marcado uma temporada de shows em Buenos Aires junto com Maria Creuza, e, precisando de um violonista, me convidou para ir com eles. Isso aconteceu em maio de 1970, quando ele ligou para casa e minha mãe atendeu. “É o Vinicius de Moraes”, ela me disse. Eu não acreditava. E era mesmo!

B.V.: Qual a inspiração para compor “A Tonga da Mironga do Kabuletê” ? Foi uma forma velada de protestar contra o regime militar?
T.: É um xingamento em nagô. Fizemos essa música no final de 1970, uma época especialmente cruel com a liberdade de tantos brasileiros. Vinicius estava casado com a baiana Gessy. Um dia, ela chegou dizendo que soubera daquela expressão em nagô e traduziu para nós. Achamos o som das palavras interessante e resolvemos usá-la para mandar muita gente pra Tonga da Mironga do Kabuletê. Mereciam.

B.V.: De acordo com a biografia “Vinícius, O Poeta da Paixão”, escrita por José Castello, a parceria de vocês era vista pelos universitários dos DCEs como uma oposição à oposição (ex. Tropicalismo). A proposta inicial era essa, ou de difundir uma nova proposta musical num país regido pela ditadura militar?
T.: Algumas de nossas músicas revelam uma visão social expressada por um simbolismo inteligente e poético. Não fazíamos oposição a nada, apenas criamos canções caracterizadas por uma simplicidade sofisticada, sem fugir do lugar-comum. Acontece que, diante das intrincadas e indefinidas tendências musicais da época, essas canções apareciam como música nova. Daí o título de nosso primeiro disco: “Música Nova...” Na realidade, o que fizemos foi resgatar raízes importantes da música brasileira. Minha melodia, calcada de uma certa maneira na Bossa Nova, e a letra de Vinicius, que voltava com fome poética de cantar o amor e o humano com a paixão que sempre fizera. A novidade era que essas canções podiam ser entendidas e cantadas de uma forma agradável e harmoniosa. As pessoas haviam se desacostumado dessa beleza simples e fácil de assimilar.

B.V.: Como você se sentia com esse Vinícius que, à época, se apresentava em circuitos universitários? Como era lidar com um Vinícius impulsivo, que um dia fora um diplomata, e agora freqüentava circuitos universitários, cercado por estudantes?
T.: Apesar da diferença de idade, Vinicius se mostrava tão jovem quanto eu. A parceria deu certo porque houve uma troca determinante: ele precisava da experiência da minha juventude; e eu, da juventude da experiência dele. Enfim, doamos a cada um o vigor que cada um precisava. Fomos os pioneiros dos Circuitos Universitários, e os estudantes vibravam diante da junção de duas gerações (eu, 23; ele, 56) que ofereciam a eles a aproximação com canções renovadoras e estimuladoras. Além de poder estar perto e dialogar abertamente com um poeta incansável na defesa do amor e da paixão em todos os sentidos.


Foto: Site oficial Toquinho

B.V.: Nessa mesma época de shows no meio estudantil, a imagem que era passada era a de um Toquinho classe média, bem comportado, que parecia destoar da realidade daquele Vinícius e dos jovens que cercavam a você e a ele. Como foi esse período pra você?
T.: Meu comportamento sempre foi muito saudável, antes e depois da convivência com Vinicius. Procurando ir ao encontro da vida, e não de encontro a ela. E Vinicius fazia isso também. Em tudo o que fazíamos, colocávamos a vida sempre na frente da arte, divertíamos-nos muito com as obrigações profissionais, tornando-as leves e prazerosas. Enfim, éramos ardilosos requintados, tanto nos bastidores quanto no palco de nossas existências.

B.V.: Dos circuitos universitários à produção de trilhas sonoras para a TV Tupi e TV Globo. Esta, inclusive, estreava sua primeira novela a cores “O Bem Amado” com toda a trilha composta por você e assinada também pelo Vinicius. Como foi essa transposição? O que os levou a essa mudança tão radical?
T.: Não houve nenhuma mudança radical, apenas a continuidade de um trabalho musical. Fomos os pioneiros também nas trilhas de novelas, cujas músicas valorizaram sobremaneira os roteiros e se transformaram em LPs de grande sucesso, como seqüência normal de nossas carreiras.

B.V.: Durante a parceria entre vocês, qual era a relação de Vinícius com os antigos parceiros musicais, como Tom Jobim, Baden Powell e Francis Hime? E a sua relação (se existia) com eles?
T.: Vinicius sempre esteve próximo de seus parceiros, mesmo depois de extinta a parceria, mantendo com eles uma amizade constante. Com isso, eu também me aproximava deles, os quais foram meus ídolos no início de minha carreira, e com os quais acabei mantendo até uma relação de trabalho, me tornando também muito amigo deles. Em 1977, trabalhamos juntos no memorável show do Canecão, no Rio de Janeiro, Tom Jobim, Vinicius, Miúcha e eu. Depois viajamos com o show para a Europa, onde, em Paris, Baden também participou do espetáculo. E Vinicius era sempre o astro maior, em torno do qual circulavam as demais estrelas.

B.V.: Uma frase de Vinícius tem grande repercussão até hoje: “São Paulo é o túmulo do samba”. Sendo você paulistano e parceiro de Vinícius, como lidava com isso? O que o poeta quis realmente dizer com essa declaração?
T.: Essa frase teve uma repercussão desmedida. Fizeram dela muito tamborim para pouco carnaval. Foi dita numa boate. Vinicius, revoltado com um grupo de pessoas que falavam alto e atrapalhavam a apresentação de Johnny Alf, insurgiu-se contra eles, a favor do talento e da música que estavam sendo desrespeitados. Nada mais do que isso. Jamais quis se referir aos compositores ou ao povo paulistano.

B.V.: Você estava na casa quando da morte de Vinícius. Como tudo aconteceu?
T.: Na época, eu fazia um show no Rio, com Francis Hime e Maria Creuza, e estava hospedado na casa do Vinicius. Naquela noite, ficamos conversando, só nós dois, até de madrugada, cantando músicas e recordando passagens de nossas vidas. De manhã, às sete horas, a empregada bateu na porta de meu quarto, gritando. Vinicius estava na banheira, passando mal. Quando cheguei perto dele, ele estava desacordado, respirava pouco. Tentei chamá-lo, reanimá-lo, ele não respondia. Chamei por uma ambulância, mas quando o médico chegou, ele já estava morto. Foi meio desesperador. Depois agradeci a Deus por ter me escolhido para passar com ele os últimos momentos de sua vida.

B.V.: Qual o legado de Vinícius para as novas gerações de artistas? Ele ainda é lembrado hoje da forma com a qual você acredita que o poeta deveria ser lembrado? E para você, quais as recordações da parceria com ele?
T.: Vinicius continua vivo, pois sua poesia e sua música são imortais. Cada vez mais celebrado em shows, em filmes, em trilhas de novelas e até em publicidades. Os momentos mais marcantes foram aqueles que acentuaram nossa amizade. Tenho saudade do Vinicius dos papos noturnos, das mesas de restaurantes, do uisquinho da tarde, das viagens inesquecíveis. Aprendi muito com ele, que me fez evoluir profissional e pessoalmente.

Vaguradista Dupla Face

Por Raisa Carlos de Andrade, Kelly Costa & Carolina Gomes


Vinícius de Moraes não se encaixava nas definições da poesia moderna brasileira. Talvez ele não coubesse no mundo, estava além. A singularidade e a simplicidade deram-lhe carinhosamente o termo "Poetinha". Esse, aquecia a vida com paixões, uísque, arte e buscava o charme das moças que transitavam pelas praias da zona sul carioca. Além de poeta, um bon vivant, gênio em tudo que se propunha.

Era um dependente da paixão e da busca pelo amor eterno. Chegar ao fim da vida passando por nove casamentos não era uma glória. Entre um relacionamento e outro, o poeta mergulhava em uma profunda melancolia. Psiquiatras de hoje definiriam isso como transtorno bipolar. Tal lado da alma já era notado nos seus dois primeiros livros: “O caminho para a distância” e “Forma e exegese”, escritos antes de seus 20 anos. Ainda jovem, analisava criticamente a existência humana com sensibilidade elevada. “Não nego que existe um Vinicius alegre, um homem gentil e sedutor, sempre em estado de paixão com a vida. Mas existe também seu avesso, e isso só não enxerga quem não quer. Na verdade, os dois Vinicius são o mesmo Vinicius. Era ele quem dizia “Se eu fosse um só, não me chamaria Vinicius de Moraes, mas Vinício de Moral”. “ diz José Castello *, autor da biografia Vinicius de Moraes: O Poeta da Paixão.

Em Poemas Esparsos, o mais recente volume da coleção das obras do poeta editada pela Companhia das Letras, as areias de Copacabana e as mocinhas de Botafogo saem de cena para dar lugar a temas fortes como sexo, morte e culpa. Inspirado pela dor e pelo prazer, inegavelmente havia alí uma pessoa intensa, traduzida o tempo todo em sua obra. O poeta habitava em suas contradições, os paradoxos que cercaram sua vida o diferenciavam e o caracterizavam como um homem de personalidade forte e, definitivamente, verdadeiro em tudo que fazia. Sua sinceridade era tamanha que ele “nunca temeu esconder sua imperfeição ao contrário, dela fez matéria de sua poesia genial” conta o biógrafo.

Ele, que sempre foi inquieto, desejava muitas coisas ao mesmo tempo, o que produzia uma insatisfação quase que permanente. Em meio a toda essa turbulência de querer tudo, fez de tudo, produziu uma obra vasta e por que não multifacetada. Encaixá-lo na poesia moderna não representa necessariamente engrandecê-lo. A extensão de Vinícius de Moraes está dentro dessa multiplicidade, na coragem de experimentar linguagens incomuns e fugir à regra, excluir dogmas ou seja lá como for: indiscutivelmente moderno.


* Para ter acesso a entevista de José Castello na íntegra, clique aqui.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Gilda, a última estrela do Poetinha

Por Carolina Bellardi, Diego Veríssimo, Eliane Rabello, Manuela Motta e Patrícia Marinho

Quando percebia que a paixão por sua mulher chegara ao fim, Vinicius de Moraes não perdia tempo. Ia embora, sem discussões ou brigas, e depois mandava uma de suas filhas recolher suas roupas e documentos da casa da ex.

Última das nove esposas que teve durante a vida, Gilda tinha 25 anos e Vinícius 63, quando começaram a namorar. Ficaram juntos pouco mais de dois anos, antes da morte do poeta. Em entrevista por vídeo, concedida ao Blog Banheira do Vinicius, Gilda revela que, para ela, sem dúvida, se casou com um príncipe, com seu ídolo.

Em seu apartamento no Rio de Janeiro, a hoje assessora de imprensa conta casos e histórias que viveu ao lado de Vinicius de Moraes. Atualmente, Gilda faz o trabalho de assessoria de Gilberto Gil e Preta Gil, além de Maria Rita, Gal Costa, Cacá Diegues, Jobim Trio e Claudia Leitte. Além dos casos vividos com o poeta, ela também conta sobre a amizade que acaba fazendo com seus assessorados.

Vídeo: 1ª parte



Vídeo: 2ª parte



Vídeo: 3ª parte

domingo, 14 de junho de 2009

Gessy Gesse, a paixão baiana de Vinícius de Moraes

Por Marcia Glenadel e Maria Helena Avena


A primeira vez que Vinicius de Moraes viu Gessy Gesse foi numa pizzaria no Leblon, no Rio, em 1969. Ele, carioca, já era um dos maiores poetas brasileiros e um dos pais da Bossa Nova. Ela, atriz do Cinema Novo baiano, estava na companhia da cantora Maria Bethânia e de outros conterrâneos que moravam na capital carioca.

Depois de receber um recado (que guarda até hoje) com o número do telefone de Vinicius, Gessy ouviu de Bethânia: “O poeta está apaixonado por você”. Esperto, Vinicius combinou com todos que estavam à mesa com a atriz que, aos poucos, saíssem do restaurante e deixassem Gessy sozinha. E foi assim que ele, aos 56 anos, conquistou a bonita morena de 31, de ascendência índia e portuguesa.

A história de amor com Gessy Gesse começou com Vinicius ainda casado com Cristina Gurjão, grávida de cinco meses e abandonada pelo poeta, encantado pela baiana Gessy, que se tornou sua sétima mulher.

Em 1969, Vinicius e Gessy se casam no Uruguai e, em 1973, na Bahia, em um ritual cigano, e não em uma cerimônia no terreiro de Mãe Menininha de Gantois, como muitos pensam. Após o casamento, Vinicius decidiu construir uma casa em Itapuã. As obras foram iniciadas em 1974, com projeto de Jamison Pedra e Sílvio Robatto. O cômodo mais singular da casa de seis quartos era o banheiro da suíte do poeta com banheira com vista para o mar.


Hoje, a casa de Itapuã foi incorporada ao Mar Brasil Hotel, e, em frente a ela, foi construída uma praça com uma estátua de bronze do poeta sentado em uma mesa de bar, como ele gostava de estar.

Cada novo amor inspirava o poeta, e com Gessy Gesse não foi diferente. Para ela, ele compôs as músicas Morena Flor, Regra Três e Samba de Gesse, além do “Soneto de Luz e Treva”.
Gessy Gesse terminou de escrever um livro que conta episódios acontecidos ao longo dos sete anos que viveu com o Poetinha. Vinicius, o homem que eu amei está sendo negociado com editoras e não se sabe quando será lançado.

Confiram abaixo, o depoimento de uma das repórteres, que teve o privilégio de ser vizinha do casal e uma entrevista com Gessy Gesse, clicando aqui.

UMA PAIXÃO BAIANA, COM AS BÊNÇÃOS DO SENHOR DO BONFIM
*depoimento de Maria Helena Avena, soteropolitana radicada no RJ, que foi vizinha do Poetinha e de Gessy Gesse na terra da Baía de Todos os Santos. Saravá!

Tudo o que acontece na vida tem uma razão e um dia. Com certeza descobrimos o porquê de termos vivido ou experienciado aquele fato ou acontecimento. Eis que agora tenho a oportunidade de falar sobre fatos que ocorreram, nos idos de 1970, quando eu morava em Salvador, no bairro, cantado belamente pelo poeta Vinicius, de Itapuã ou, como também se escreve, Itapuan. O baiano é de fato singular, até na grafia.

Àquela época, eu morava na Rua J e era vizinha de Juca Chaves. A casa de Vinicius e Gessy Gesse ficava a cerca de um quarteirão, em frente ao Farol de Itapuã. O bairro era conhecido como “dos artistas” e muitos deles estiveram por lá morando ou veraneando (como se diz lá na terrinha).

Itapuã era uma grande aldeia e todos se conheciam e frequentavam praticamente os mesmos lugares. Uma grande festa “democrática”. Um dia, em festa na casa de um amigo do bairro, que conhecia todos (como, aliás, é característica do baiano, se enturma fácil), tive o privilégio de encontrar a Gessy Gesse, uma pessoa super simpática e charmosa. A primeira vez que a vi, ela ainda não era casada com Vinicius e, como é normal nas reuniões por lá, todos se enturmam com todos e quem não se conhece vira verdadeiro amigo de infância do outro rapidamente, é só perguntar: “– De que família você é?”, e pronto: desfilam imediatamente nomes os mais diversos e de repente você vira até parente do até então desconhecido.

Algum tempo depois soube, por esse mesmo amigo, que a Gessy tinha conhecido o Vinicius e os dois namoravam apaixonadamente. E como era esperado do poeta, casou-se com a Gessy e se mudaram pra essa casa de Itapuã.

Pouco tempo depois recebi um telefonema desse amigo, avisando que a Gessy tinha convidado todo o grupo, daquela festa, para a celebração de inauguração da nova casa, onde iria morar com Vinicius. Fomos todos e foi muito especial. Havia pessoas conhecidas de todo o Brasil, além dos amigos baianos; uma farra! Conhecemos a casa toda, que ficava em meio a um terreno de esquina, e tinha (àquela época) os muros baixos e um belo jardim. Era uma casa de dois pavimentos, e o que achei de mais curioso foi o banheiro do casal, onde havia uma banheira enorme em frente a uma grande janela de vidro que permitia uma visão panorâmica da praia (para poder olhar o mar, pois Vinicius não ia à praia jamais).

A imensa banheira era rodeada por um pequeno bar, uma mesa para sua máquina de escrever e cadeiras. Segundo dizia o povo, enquanto Vinicius tomava longos banhos de imersão recebia os amigos naquele local e conversavam tranquilamente. Excentricidade dos mestres... Ele costumava dizer, em roda de amigos, que ali era um local onde se inspirava para compor suas mais belas canções.

O casal estava de fato apaixonadíssimo; todos notavam isso e como Vinicius mesmo dizia: “que seja infinito enquanto dure”. Com certeza ele viveu essa paixão intensamente, bebendo-a até a última gota, com um velho calção de banho e todo o dia pra vadiar, em frente ao um mar que não tem tamanho, olhando um arco-íris no ar e falando de amor pra sua paixão baiana, em Itapuã.

terça-feira, 9 de junho de 2009

União entre poetas paulista e carioca saúda a Tristeza


Adoniran Barbosa e Grupo Talismã cantando Bom Dia Tristeza

Por Barbra Richard, George Barros, Mariana Camacho e Paloma Sarmento


Autor de uma das músicas mais tocadas e gravadas no mundo, Garota de Ipanema, o carioca Vinícius também possui ligação com o samba de São Paulo. O paulistano Adoniran Barbosa, conhecido, principalmente, por sucessos como Trem das Onze e Saudosa Maloca, foi um dos tantos parceiros do poeta. Os dois dividiram a autoria da música “Bom dia, Tristeza”, gravada pela primeira vez em 1957, pela cantora Aracy de Almeida.

Curiosamente, a parceria ocorreu mesmo sem terem se encontrado. O próprio Adoniran divertiu-se contando a Elis Regina, no programa No Fino da Bossa, em 1965.

Elis: Como é que você se tornou parceiro de Vinicius de Moraes sem sequer conhecê-lo?


Adoniran: Fácil, é fácil, fácil. A Aracy de Almeida, que é muito amiga dele (ele estava em Paris nessa ocasião, na UNESCO) recebeu uma carta dele e dentro da carta veio assim essa letra, dois versinhos, e dizia embaixo “Aracy, faça o que você quiser com esses versos”.


Elis: Então a Aracy pegou e deu pra você.


Adoniran: Então eu tava pertinho dela, não é? E ela era ligação minha, não é? Ela disse “Ô, Adoniran, bota a música aí”.


Elis: Quer dizer que a letra é de Vinicius de Moraes e a melodia é que é sua.
Adoniran: A letra é de Vinicius e a musiquinha é minha.

O encontro dos dois só aconteceu uma única vez, em 1979, após um show do Poetinha com Toquinho, no auditório da PUC, em São Paulo. Para Sérgio Rubinato, sobrinho de Adoniran que testemunhou, eles mal trocaram uma palavra. “Foi comunicação via olhos...”.

Segundo o livro “Adoniran: Dá licença de Contar”, de Ayrton Mugnaini Jr, Aracy de Almeida e Vinícius estavam no bar do Hotel Comodoro, em São Paulo quando esta pediu ao poeta que escrevesse um poema especialmente para ela. Vinicius escreveu “Bom dia, Tristeza” em minutos e deu o papel com o poema a Aracy, dizendo “Faça o que bem entender”. Alguns dias depois, na Rádio Record, onde Adoniran trabalhava, Aracy o desafiou a musicar o poema de Vinícius. Diz a esposa de Adoniran, Mathilde, que alguns dias depois, seu marido começou a assobiar e a melodia veio de repente.


Uma outra versão, mais polêmica, credita a autoria da melodia ao cantor e compositor Noite Ilustrada, que teria entregue a música pronta a Adoniran, gravada numa fita.
Vinícius nunca se pronunciou a respeito da discussão.


Bom dia, Tristeza
(Vinícius de Moraes & Adoniran Barbosa)

Bom dia, tristeza
Que tarde, tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você

Se chegue, tristeza
Se sente comigo
Aqui, nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar

domingo, 7 de junho de 2009

Ele viu a "Arca de Noé"

Por Jefferson Molina

Calma, leitor. A arca de Noé citada não é a das histórias bíblicas, e sim um poema de composição de Vinicius de Moraes, Toquinho e Ernst Nahle: "Sete em cores, de repente o arco-íris se desata. Na água límpida e contente do ribeirinho da mata". Quem viu a criação destes belos versos foi Fernando Uchôa, filho de Cristina Gurjão, uma das ex-mulheres de Vinicius. Hoje com 26 anos, ele concedeu entrevista ao blog, na qual falou sobre sua relação com o ex-poeta, os amigos que fez com o tempo de convivência e as últimas lembranças de Vinicius.

Convivência e lembranças


"Convivi com o Vinicius durante uma ano e meio praticamente. Na verdade ele teve um relacionamento com minha mãe, foi meu padastro, não me assumia como filho mas tinha um carinho por mim, me tratando às vezes como um filho dele. Na época em que me conheceu não convivíamos muito, mas foi melhorando com o tempo e ficou bem legal. Me lembro muito do apartamento onde morávamos, num bairro da zona sul aqui do Rio, sinto saudades".

Vinicius, a fama e os amigos


"A fama dele não atrapalhava de jeito nenhum a convivência. Era um bom pai, na medida do possível, mas não podemos esquecer que era um artista, poeta e diplomata. Não podemos esquecer que ser artista é uma característica inerente. Lembro dele declamando versos, por vezes sem fim, tirar partes, colocar partes. Conheci muitos amigos dele, como Tom Jobim, Carlinhos de Oliveira, Toquinho, Lila Bôscoli, Roniquibo e mais um punhado".

A banheira e os últimos momentos juntos

"Ele amava banhos de banheira, sentia-se totalmente à vontade dntro delas, era como se sua inspiração começasse alí. Infelizmente não me lembro bem a última vez que estive com Vinicius, sei que fui ver muitas vezes seu último show, 'Tom, Miucha, Toquinho e Vinicius', vi umas dez vezes ou mais, essas são as últimas lembranças".

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Estrela Solitária

Por Marcia Glenadel e Maria Helena Avena


Encontro de botafoguenses no Bar Villarino: Vinicius sorri à cabeceira da mesa; logo à esquerda na foto, está Lúcio Rangel; à direita de Vinicius, o pequeno Pedro, seu filho; em pé à direita, o poeta Paulo Mendes Campos; logo abaixo dele, o radialista Fernando Lobo. Atrás deles, estão os célebres desenhos na parede; marca registrada do Villarino.

Vinicius de Moraes teve nove mulheres, mas seu coração também abrigava o amor pelo clube Botafogo de Futebol e Regatas. Longe de ser um torcedor fervoroso ou de, literalmente, vestir a camisa, o Poetinha afirmava que: “No Rio, a formação da identidade, passa, também, pela eleição de um time de futebol. O poeta, fiel à sua infância, escolhe o Botafogo. Não frequenta os estádios. Não lê o noticiário esportivo. Não ouve as transmissões pelo rádio. Mas, se perguntarem seu time, afirma: ‘Botafogo’. Não se trata de uma paixão, mas de uma senha para a cidadania”. Para cada novo amor, Vinicius dedicava um poema ou música. Para o seu amor solitário, o poeta escreveu o poema “O anjo das pernas tortas”* e um depoimento a um certo Mr. Buster, a quem Vinicius conheceu em Los Angeles quando lá morou.

No entanto, não há registros aprofundados da faceta botafoguense de Vinicius. Sabemos do fato através do livro de Sergio Augusto: Botafogo – entre o céu e o inferno (Ediouro, 2004) e de referências a Vinicius em blogs de torcedores do clube. Na sede de General Severiano, inclusive, a memória documental se perdeu em um incêndio. Botafoguenses de todo o mundo, revoltai-vos!

Em Botafogo – entre o céu e o inferno, Sergio Augusto “escala” um dream team de artistas e intelectuais; confiram: Schmidt, Bilac e Vinicius; Paulinho, Sabino e Clarice; Glauber, Otto, Veríssimo, Ivan e Antonio Candido. Esclarecendo: Schmidt é o poeta e empresário Augusto Frederico Schmidt; Paulinho é o escritor Paulo Mendes Campos; Sabino é o Fernando, colega e conterrâneo de Mendes Campos; Clarice é a nossa Lispector; Glauber ... o Rocha!; Otto é o Lara Resende, jornalista e escritor; Veríssimo é ninguém mais ninguém menos do que o Luís Fernando; Ivan é o Lessa, também jornalista e escritor; e Antonio Candido, crítico literário de renome. E, claro: Vinicius é o de Moraes.

Quem diria o nosso Poetinha em um time desses, hem? Até Orson Welles, com quem Vinicius estudou cinema em Los Angeles, rendeu-se aos encantos do clube alvinegro quando esteve no Brasil para a filmagem de "It’s All True". Foi no Calabouço, na Festa da Mocidade, destinada a angariar fundos para a recém-criada UNE, que Welles começou a ser “catequizado” por Luiz Paes Leme (um dos fundadores da UNE). Sergio Augusto registra em seu livro (p. 41) que:

“Orson Welles não precisou ir a um campo de futebol no Rio para escolher o time de sua simpatia. Bastou-lhe o Calabouço. Do resto da catequese deve ter-se ocupado Vinicius de Moraes, que acompanhou o cineasta a tudo quanto é canto da cidade e com ele tomaria aulas de direção, em Los Angeles, no final dos anos 1940.”

Vinicius de Moraes foi também um homem de muitos amigos e parceiros. Paulo Mendes Campos e Lúcio Rangel eram botafoguenses. Tom Jobim e Chico Buarque, tricolores. Cyro Monteiro, flamenguista. Toquinho, corinthiano. Nem as diferenças de clubes abalaram as sólidas relações de amizade do Poetinha. Eis aí um exemplo para se curtir o futebol sem violência, além de um exercício de alteridade. Vinicius era generoso e, com certeza, ficaria feliz com a paz no esporte. Aos botafoguenses, parabéns por terem em seu rol de torcedores tão ilustre poeta, jornalista, diplomata; enfim, uma figura humana ímpar.



*O Anjo das Pernas Tortas


A um passe de Didi, Garrincha avança

Colado o couro aos pés, o olhar atento

Dribla um, dribla dois, depois descansa

Como a medir o lance do momento.


Vem-lhe rápido o pressentimento; ele se lança

Mais rápido que o próprio pensamento

Dribla mais um, mais dois: a bola trança

Feliz, entre seus pés__ um pé de vento!



Num só transporte a multidão contrita

Em ato de morte se levanta e grita

Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: — Gooool!

É pura imagem: um "G" que chuta o "O"

Dentro da meta, um "L". É pura dança!


Vinícius de Moraes, 1962.