domingo, 21 de junho de 2009

Vaguradista Dupla Face

Por Raisa Carlos de Andrade, Kelly Costa & Carolina Gomes


Vinícius de Moraes não se encaixava nas definições da poesia moderna brasileira. Talvez ele não coubesse no mundo, estava além. A singularidade e a simplicidade deram-lhe carinhosamente o termo "Poetinha". Esse, aquecia a vida com paixões, uísque, arte e buscava o charme das moças que transitavam pelas praias da zona sul carioca. Além de poeta, um bon vivant, gênio em tudo que se propunha.

Era um dependente da paixão e da busca pelo amor eterno. Chegar ao fim da vida passando por nove casamentos não era uma glória. Entre um relacionamento e outro, o poeta mergulhava em uma profunda melancolia. Psiquiatras de hoje definiriam isso como transtorno bipolar. Tal lado da alma já era notado nos seus dois primeiros livros: “O caminho para a distância” e “Forma e exegese”, escritos antes de seus 20 anos. Ainda jovem, analisava criticamente a existência humana com sensibilidade elevada. “Não nego que existe um Vinicius alegre, um homem gentil e sedutor, sempre em estado de paixão com a vida. Mas existe também seu avesso, e isso só não enxerga quem não quer. Na verdade, os dois Vinicius são o mesmo Vinicius. Era ele quem dizia “Se eu fosse um só, não me chamaria Vinicius de Moraes, mas Vinício de Moral”. “ diz José Castello *, autor da biografia Vinicius de Moraes: O Poeta da Paixão.

Em Poemas Esparsos, o mais recente volume da coleção das obras do poeta editada pela Companhia das Letras, as areias de Copacabana e as mocinhas de Botafogo saem de cena para dar lugar a temas fortes como sexo, morte e culpa. Inspirado pela dor e pelo prazer, inegavelmente havia alí uma pessoa intensa, traduzida o tempo todo em sua obra. O poeta habitava em suas contradições, os paradoxos que cercaram sua vida o diferenciavam e o caracterizavam como um homem de personalidade forte e, definitivamente, verdadeiro em tudo que fazia. Sua sinceridade era tamanha que ele “nunca temeu esconder sua imperfeição ao contrário, dela fez matéria de sua poesia genial” conta o biógrafo.

Ele, que sempre foi inquieto, desejava muitas coisas ao mesmo tempo, o que produzia uma insatisfação quase que permanente. Em meio a toda essa turbulência de querer tudo, fez de tudo, produziu uma obra vasta e por que não multifacetada. Encaixá-lo na poesia moderna não representa necessariamente engrandecê-lo. A extensão de Vinícius de Moraes está dentro dessa multiplicidade, na coragem de experimentar linguagens incomuns e fugir à regra, excluir dogmas ou seja lá como for: indiscutivelmente moderno.


* Para ter acesso a entevista de José Castello na íntegra, clique aqui.

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