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sábado, 27 de junho de 2009

Vinicius em cada um

Por Alexandre Vasconcellos & Yana Campos




Essa matéria contém depoimentos sobre o significado de Vinicius de Moraes ainda hoje na vida das pessoas, que foram abordadas na Facha (Campus 1) e arredores. No entanto, fomos pegos de surpresa pela opinião de um menino de rua na rua Farani, que não conhecia o Poetinha, mas curiosamente se interessou em participar.

Um bar muito além do cardápio

Combinação perfeita de gastronomia, boemia e muitas histórias.

Por Raquel de Póvoas, Victor Deveza, Cristiane Campos, Marcos Renkert



O “Garota de Ipanema” não é um bar apenas conhecido por servir deliciosos petiscos de frutos do mar, ele é berço e faz parte da história da música de mesmo nome que ainda hoje é uma das mais ouvidas no mundo. Antes mesmo de ganhar o seu nome atual o bar já era freqüentado por personalidades como Vinicius de Moraes que, ao observar uma bela moça passar todo dia em frente ao bar para ir à praia compôs “Garota de Ipanema”, música esta que emprestou seu nome ao então chamado bar Veloso.


Foto: Marcos Renkert

Adonias Teixeira (foto acima), garçom de longa data do “Garota de Ipanema”, em uma conversa para o Blog da Banheira, diz que Vinicius de Moraes costumava chegar antes do bar abrir, por volta das nove e meia da manhã e que sempre estava rodeado de ilustres amigos como o presidente do Hospital de Ipanema, oficiais da


Marinha e cantores, dentre os quais Tom Jobim, Miúcha e Chico Buarque.Pessoa bem-humorada, afirma Adonias, Vinicius almoçava com os funcionários e não hesitava em falar com seus admiradores.”O que consumia era por conta da casa e seu forte era mesmo Whisky”, comenta o garçom descontraído. O bar naqueles tempos não era muito grande.Hoje ele ocupa a esquina da rua Vinicius de Moraes com a Prudente de Moraes.

Fachada Bar Garota de Ipanema
Foto: Marcos Renkert

O bar recebe muitos jornalistas, brasileiros e estrangeiros, que vão a busca de relatos sobre Vinicius, a garota de Ipanema Helô Pinheiro e outras pessoas que marcaram a história da música brasileira.Cheio de fotografias, artigos de jornal e outros objetos que remetem à Bossa Nova, o “Garota de Ipanema” ainda conserva a mesa onde Vinicius sentava para beber com os amigos e compor suas músicas.



Mesa onde Vinicius de Moraes costumava sentar
Foto: Marcos Renkert

Não é de se estranhar que o bar seja freqüentado por turistas do mundo inteiro, afinal, nele os clientes podem somar o prazer da boa culinária brasileira à oportunidade de voltar no tempo e reviver um pouco do que foi a grande época da música e da poesia do nosso eterno “Poetinha”.


domingo, 21 de junho de 2009

Entrevista Exclusiva com Toquinho para Banheira


Foto: Site oficial Toquinho


Por Barbra Richard, George Barros, Mariana Camacho e Paloma Sarmento


O paulistano Toquinho (Antonio Pecci Filho) foi um dos muitos parceiros musicais do carioca Vinícius. Durante onze anos os dois compuseram mais de 100 músicas, gravaram 25 discos e se exibiram em mais de 1000 shows pelo Brasil, Américas e Europa. Apesar da diferença de idade (33 anos), a parceria entre ambos foi de muita afinidade e compreensão, sendo, talvez a parceria mais duradoura que Vinícius manteve em sua carreira.

A dupla foi pioneira na produção de trilhas sonoras para novelas de televisão como "O Bem Amado" para a TV Globo nos anos 70, além gravar dois discos de músicas infantis, inspirados em alguns poemas do livro de Vinícius, Arca de Noé.
Cantor, compositor e instrumentista, Toquinho compôs mais de duzentas músicas, muitas vezes em parceria com grandes nomes da MPB, como Jorge Benjor (Que Maravilha), Paulinho da Viola (Caso Encerrado) e Chico Buarque (Samba de Orly e Samba pra Vinícius).

Em entrevista exclusiva, por email, para A Banheira do Vinícius, Toquinho nos brindou com algumas histórias da sua parceria com o poetinha.

BANHEIRA DO VINICIUS: O início da parceria entre vocês, de acordo com diversas fontes, é controverso. Algumas dizem que o encontro se dá na Itália, durante seu exílio com Chico. Outras, em período anterior a este, em que sua mãe recebeu um telefonema do próprio Vinícius. Como se deu este primeiro contato afinal?
TOQUINHO: Nem um nem outro. Esse e outros episódios sobre minha carreira podem ser encontrados de uma forma autêntica no livro “Toquinho - 40 Anos de Música”, escrito por meu irmão, João Carlos Pecci, com relatos que juntam depoimentos meus, na íntegra. Em 1969, no último mês de minha permanência na Itália, ao lado de Chico, participei da gravação de um disco (“La vita, amico, é l’arte dell’incontro”) em homenagem a Vinicius de Moraes. Acabei gravando esse disco nos últimos dias em que fiquei por lá. O Bardotti (Sérgio Bardotti, produtor italiano) me chamou para completar o que já tinha sido feito com Sérgio Endrigo, o poeta Ungaretti e o Vinicius de Moraes. Faltava um violão que servisse de fundo para algumas poesias e algumas músicas. Eu fiz então esse alinhavo musical com meu violão. Voltei para o Brasil. Até aí, tinha estado com Vinicius umas duas ou três vezes, de passagem, um cumprimento, nem conversamos nem nada. Mas claro que ele já sabia de mim. Alguns meses depois, ao ouvir aquele disco, Vinicius ficou impressionado com os solos de violão. Por coincidência, havia marcado uma temporada de shows em Buenos Aires junto com Maria Creuza, e, precisando de um violonista, me convidou para ir com eles. Isso aconteceu em maio de 1970, quando ele ligou para casa e minha mãe atendeu. “É o Vinicius de Moraes”, ela me disse. Eu não acreditava. E era mesmo!

B.V.: Qual a inspiração para compor “A Tonga da Mironga do Kabuletê” ? Foi uma forma velada de protestar contra o regime militar?
T.: É um xingamento em nagô. Fizemos essa música no final de 1970, uma época especialmente cruel com a liberdade de tantos brasileiros. Vinicius estava casado com a baiana Gessy. Um dia, ela chegou dizendo que soubera daquela expressão em nagô e traduziu para nós. Achamos o som das palavras interessante e resolvemos usá-la para mandar muita gente pra Tonga da Mironga do Kabuletê. Mereciam.

B.V.: De acordo com a biografia “Vinícius, O Poeta da Paixão”, escrita por José Castello, a parceria de vocês era vista pelos universitários dos DCEs como uma oposição à oposição (ex. Tropicalismo). A proposta inicial era essa, ou de difundir uma nova proposta musical num país regido pela ditadura militar?
T.: Algumas de nossas músicas revelam uma visão social expressada por um simbolismo inteligente e poético. Não fazíamos oposição a nada, apenas criamos canções caracterizadas por uma simplicidade sofisticada, sem fugir do lugar-comum. Acontece que, diante das intrincadas e indefinidas tendências musicais da época, essas canções apareciam como música nova. Daí o título de nosso primeiro disco: “Música Nova...” Na realidade, o que fizemos foi resgatar raízes importantes da música brasileira. Minha melodia, calcada de uma certa maneira na Bossa Nova, e a letra de Vinicius, que voltava com fome poética de cantar o amor e o humano com a paixão que sempre fizera. A novidade era que essas canções podiam ser entendidas e cantadas de uma forma agradável e harmoniosa. As pessoas haviam se desacostumado dessa beleza simples e fácil de assimilar.

B.V.: Como você se sentia com esse Vinícius que, à época, se apresentava em circuitos universitários? Como era lidar com um Vinícius impulsivo, que um dia fora um diplomata, e agora freqüentava circuitos universitários, cercado por estudantes?
T.: Apesar da diferença de idade, Vinicius se mostrava tão jovem quanto eu. A parceria deu certo porque houve uma troca determinante: ele precisava da experiência da minha juventude; e eu, da juventude da experiência dele. Enfim, doamos a cada um o vigor que cada um precisava. Fomos os pioneiros dos Circuitos Universitários, e os estudantes vibravam diante da junção de duas gerações (eu, 23; ele, 56) que ofereciam a eles a aproximação com canções renovadoras e estimuladoras. Além de poder estar perto e dialogar abertamente com um poeta incansável na defesa do amor e da paixão em todos os sentidos.


Foto: Site oficial Toquinho

B.V.: Nessa mesma época de shows no meio estudantil, a imagem que era passada era a de um Toquinho classe média, bem comportado, que parecia destoar da realidade daquele Vinícius e dos jovens que cercavam a você e a ele. Como foi esse período pra você?
T.: Meu comportamento sempre foi muito saudável, antes e depois da convivência com Vinicius. Procurando ir ao encontro da vida, e não de encontro a ela. E Vinicius fazia isso também. Em tudo o que fazíamos, colocávamos a vida sempre na frente da arte, divertíamos-nos muito com as obrigações profissionais, tornando-as leves e prazerosas. Enfim, éramos ardilosos requintados, tanto nos bastidores quanto no palco de nossas existências.

B.V.: Dos circuitos universitários à produção de trilhas sonoras para a TV Tupi e TV Globo. Esta, inclusive, estreava sua primeira novela a cores “O Bem Amado” com toda a trilha composta por você e assinada também pelo Vinicius. Como foi essa transposição? O que os levou a essa mudança tão radical?
T.: Não houve nenhuma mudança radical, apenas a continuidade de um trabalho musical. Fomos os pioneiros também nas trilhas de novelas, cujas músicas valorizaram sobremaneira os roteiros e se transformaram em LPs de grande sucesso, como seqüência normal de nossas carreiras.

B.V.: Durante a parceria entre vocês, qual era a relação de Vinícius com os antigos parceiros musicais, como Tom Jobim, Baden Powell e Francis Hime? E a sua relação (se existia) com eles?
T.: Vinicius sempre esteve próximo de seus parceiros, mesmo depois de extinta a parceria, mantendo com eles uma amizade constante. Com isso, eu também me aproximava deles, os quais foram meus ídolos no início de minha carreira, e com os quais acabei mantendo até uma relação de trabalho, me tornando também muito amigo deles. Em 1977, trabalhamos juntos no memorável show do Canecão, no Rio de Janeiro, Tom Jobim, Vinicius, Miúcha e eu. Depois viajamos com o show para a Europa, onde, em Paris, Baden também participou do espetáculo. E Vinicius era sempre o astro maior, em torno do qual circulavam as demais estrelas.

B.V.: Uma frase de Vinícius tem grande repercussão até hoje: “São Paulo é o túmulo do samba”. Sendo você paulistano e parceiro de Vinícius, como lidava com isso? O que o poeta quis realmente dizer com essa declaração?
T.: Essa frase teve uma repercussão desmedida. Fizeram dela muito tamborim para pouco carnaval. Foi dita numa boate. Vinicius, revoltado com um grupo de pessoas que falavam alto e atrapalhavam a apresentação de Johnny Alf, insurgiu-se contra eles, a favor do talento e da música que estavam sendo desrespeitados. Nada mais do que isso. Jamais quis se referir aos compositores ou ao povo paulistano.

B.V.: Você estava na casa quando da morte de Vinícius. Como tudo aconteceu?
T.: Na época, eu fazia um show no Rio, com Francis Hime e Maria Creuza, e estava hospedado na casa do Vinicius. Naquela noite, ficamos conversando, só nós dois, até de madrugada, cantando músicas e recordando passagens de nossas vidas. De manhã, às sete horas, a empregada bateu na porta de meu quarto, gritando. Vinicius estava na banheira, passando mal. Quando cheguei perto dele, ele estava desacordado, respirava pouco. Tentei chamá-lo, reanimá-lo, ele não respondia. Chamei por uma ambulância, mas quando o médico chegou, ele já estava morto. Foi meio desesperador. Depois agradeci a Deus por ter me escolhido para passar com ele os últimos momentos de sua vida.

B.V.: Qual o legado de Vinícius para as novas gerações de artistas? Ele ainda é lembrado hoje da forma com a qual você acredita que o poeta deveria ser lembrado? E para você, quais as recordações da parceria com ele?
T.: Vinicius continua vivo, pois sua poesia e sua música são imortais. Cada vez mais celebrado em shows, em filmes, em trilhas de novelas e até em publicidades. Os momentos mais marcantes foram aqueles que acentuaram nossa amizade. Tenho saudade do Vinicius dos papos noturnos, das mesas de restaurantes, do uisquinho da tarde, das viagens inesquecíveis. Aprendi muito com ele, que me fez evoluir profissional e pessoalmente.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Gilda, a última estrela do Poetinha

Por Carolina Bellardi, Diego Veríssimo, Eliane Rabello, Manuela Motta e Patrícia Marinho

Quando percebia que a paixão por sua mulher chegara ao fim, Vinicius de Moraes não perdia tempo. Ia embora, sem discussões ou brigas, e depois mandava uma de suas filhas recolher suas roupas e documentos da casa da ex.

Última das nove esposas que teve durante a vida, Gilda tinha 25 anos e Vinícius 63, quando começaram a namorar. Ficaram juntos pouco mais de dois anos, antes da morte do poeta. Em entrevista por vídeo, concedida ao Blog Banheira do Vinicius, Gilda revela que, para ela, sem dúvida, se casou com um príncipe, com seu ídolo.

Em seu apartamento no Rio de Janeiro, a hoje assessora de imprensa conta casos e histórias que viveu ao lado de Vinicius de Moraes. Atualmente, Gilda faz o trabalho de assessoria de Gilberto Gil e Preta Gil, além de Maria Rita, Gal Costa, Cacá Diegues, Jobim Trio e Claudia Leitte. Além dos casos vividos com o poeta, ela também conta sobre a amizade que acaba fazendo com seus assessorados.

Vídeo: 1ª parte



Vídeo: 2ª parte



Vídeo: 3ª parte

domingo, 14 de junho de 2009

Vilarino, Vilariño, Villariño, Vilarinho

Por Thiago Tavares & Raphael Raposo

O nome deste aconchegante bar já foi escrito de muitas maneiras. Vilarino, Vilariño, Villariño, Vilarinho e por ai vai. Mas a placa, próximo a porta não esconde seu verdadeiro nome: Villarino. E lá está desde sua inauguração em 1953. Na entrada, o Villarino é uma mercearia, com comestíveis e acepipes finos e bebidas importadas. Um canto cheio de bossa. Mais ao fundo, algumas mesas, onde o uísque é a bebida mais pedida. E numa destas mesas deu-se um encontro histórico: O encontro do maestro maior, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim com o diplomata e poeta Vinícius de Moraes.

Foto:Poetinha Vagabundo
Está é uma clássica foto do Bar Villarino, já citada em posts anteriores, inclusive. Vinicius está com seu filho, Pedro, ao seu lado, no centro da foto.


Não faltam histórias engraçadas naquela simpática esquina. Quem afirma isso é a atual administradora do bar, Stela Nava, nora de Antonio Vasquez, atual proprietário do bar, que começou como copeiro no estabelecimento e está lá até hoje. Vasquez inclusive chegou a servir Vinícius algumas vezes.

Situado nas proximidades do aeroporto, na esquina da Avenida Calógeras com Presidente Wilson, o Villarino era um dos pontos preferidos de intelectuais, jornalistas, poetas e artistas. Muita gente aparecia por lá em busca de novas amizades, muitos artistas em início de carreira. A região vivia em ebulição com redações de jornais, gravadoras e editoras nas imediações. Na década de 50, muitos dos artistas que freqüentavam o bar, deixaram em suas paredes marcas de seu talento e algumas obras. Di Cavalcanti fazia desenhos por lá. Ary Barroso escreveu as primeiras notas de Aquarela do Brasil em uma daquelas mesas sagradas. Era gente da mais alta qualidade, bebedores profissionais.


Foto: Qype
Fachada do quase sessentão Villarino


Tom, Vinicius e Villarino - a parceria

Volta e meia passava por lá um rapaz chamado Tom Jobim, que saia de seu trabalho na gravadora Odeon, em busca de carona ou apenas esperando horário mais tranqüilo, para fugir do transito e pegar condução de volta à Zona Sul. E em 1956, talvez no outono, e não no verão como consta na placa colocada junto à entrada do bar, o poeta Vinicius de Moraes, recém chegado de Paris, contava aos amigos Lúcio Rangel e Haroldo Barbosa, numa mesa do Villarino, as novidades sobre a peça que queria encenar. Vinicius pensava em adaptar para o ambiente dos morros e das favelas cariocas o mito grego de Orfeu.

Com o texto pronto e premiado, o Poeta precisava de quem fizesse as músicas da tragédia carioca Orfeu da Conceição. Vadico, compositor e parceiro de Noel Rosa, o primeiro a ser consultado, declinou o convite por achar a tarefa muito árdua. Por coisas do destino, ou não, pouco importa, numa mesa do Villarino, Lúcio Rangel sugeriu o nome do pianista Antonio Carlos Jobim, então com 29 anos, a Vinicius de Moraes. Os dois já se conheciam, mas ainda não eram amigos e tinham uma relação cordial e nada mais. Foi Marcado o encontro. Tom Jobim com sua pasta de arranjador ouviu de Vinicius uma detalhada explicação sobre a peça Orfeu da Conceição e de como imaginava a música. De Tom Jobim, preocupado com o leite do dia a dia e o difícil início de carreira e com as contas que venciam aos borbotões, ouviu-se somente a seguinte frase: “Tem um dinheirinho nisso?” Lucio Rangel, perplexo e desnorteado, ainda tentou consertar: “Mas Tom, como é que você ousa falar com o poeta sobre dinheiro numa hora destas.”

Começava ali a histórica parceria de Tom e Vinicius, numa mesa do hoje quase sessentão, Villarino. Tom Jobim já morava no famoso imóvel da Rua Nascimento e Silva, 107, em Ipanema e dentre as inúmeras músicas de Orfeu, estava o sucesso “Se Todos Fossem Iguais a você”. Uma parceria que começou numa mesa de bar e deu origem a Bossa Nova, e como testemunha as paredes do Villarino e alguns sortudos da época.

Villarino e as paredes de "luto"

Já nos anos 60, o proprietário do Villarino, aborrecido com o que considerava uma sujeirada nas paredes, mandou pintar tudo de preto. Anos depois, tentaram recuperar as preciosidades que jaziam sob a pintura miliciana. Várias fotos de época ainda mostram um pouco do que ficou soterrado debaixo da atitude tresloucada do antigo proprietário. Ainda é possível ver o contorno de uma mulata feito por Di Cavalcanti junto ao grande painel colado numa parede mais ao fundo do Bar. Na foto, à esquerda está Lúcio Rangel, à direita de Vinicius, o pequeno Pedro, filho do poetinha. Em pé à direita, o poeta Paulo Mendes Campos, e logo abaixo dele, o radialista Fernando Lobo.

O renomado livro de Fernando Lobo


Uma boa dica para quem quer saber mais da história do Villarino é o Livro: À Mesa do Vilarinõ, de Fernando Lobo, pai de Edu Lobo, pela editora Record. Está esgotado, mas é possível garimpar em algum sebo da cidade. E se você estiver pelo centro do Rio, não perca a oportunidade, junto umas moedas, sente numa mesa do bar e beba um uisquinho em homenagem a dupla. E se quiser ouvir boas histórias procure a sempre simpática Stela, administradora do bar, que tem algumas preciosidades no arquivo pessoal do bar.

terça-feira, 2 de junho de 2009

O melhor da música brasileira na Toca do Vinicius

Foto: Arquivo pessoal

Carlos Alberto Afonso, proprietário da TOCA DO VINICIUS, anuncia, na calçada da livraria, o 1º FESTIVAL DE VERÃO BOSSA NOVA - RIO, que realizou em fevereiro de 2009 e, a seguir, a tradicional festa de ANIVERSÁRIO DO RIO.

Por Carolina Bellardi, Diego Veríssimo, Eliane Rabello, Manuela Motta e Patrícia Marinho


A Toca do Vinícius é um espaço cultural, localizado em Ipanema, que reúne o melhor da música carioca. Em um ambiente descontraído e aconchegante, Bossa Nova, Samba e Choro marcam presença absoluta. Também conhecido como Templo da Bossa Nova, o local possui um espaço cultural dedicado à realização de eventos, onde acontecem palestras e exibição de vídeos. Na Toca também se encontra o Museu da Bossa Nova, que agrega tudo o que há de mais valioso do gênero musical. O visitante pode ainda assistir, uma vez por mês, shows públicos que acontecem na “Calçada da Fama” de Ipanema.

Carlos Alberto Afonso, ex-professor de literatura, é o responsável por este agradável patrimônio da música brasileira, que há mais de 15 anos encanta todos os admiradores da Bossa Nova. Autor do livro ABC de Vinicius de Moraes, lançado em 1991, Carlos, fala em entrevista ao Blog, como nasceu sua admiração por Vinícius e sobre a importância de homenagear grandes compositores que marcaram geração. Veja a seguir a entrevista com o proprietário da Toca.

BANHEIRA DO VINICIUS: Carlos, fale um pouco sobre o que é a TOCA DO VINICIUS e suas atividades.

CARLOS ALBERTO AFFONSO: A livraria TOCA DO VINICIUS foi fundada em 27 de setembro de 1993 com os objetivos de editar, publicar e/ou simplesmente comercializar livros, revistas, jornais e afins. Comercializar discos, cds e dvds e mídias audiovisuais em geral, além produtos artesanais nos diversos materiais (papel, tecido, madeira, vidro, cerâmica, ferro, etc. E comercializar instrumentos musicais.

Muito importante acrescentar que, por opção de projeto, a TOCA se dedica à música e privilegia a referência musical local (nas dimensões da Cidade e do Bairro), com especial ênfase sobre a Bossa Nova.

B.V: Como nasceu a idéia de criar um espaço cultural ?

C.A.A.: Tenho hereditária necessidade de me manter articulado, o mais amplamente possível, com a sociedade. O magistério foi este instrumento durante a maior parte de minha vida.
Penduradas as chuteiras da sala-de-aula, passei a construir um outro instrumento de articulação. Ronaldo Bôscoli me convidou para, juntos, fazermos a Casa da Bossa Nova, pois ele sabia que este era também meu desejo. Ronaldo adoeceu e pouco depois partiria. Eu toquei meu barco com uma cara mais pedagógica do que a que ele faria (certamente). Sei que ele aprovaria meu esforço, que começou pela livraria, vendendo um livrinho, um disquinho...e, pouco-a-pouco, avançando com o projeto sem quaisquer vínculos ou interferências. Tudo tão pessoal quanto a própria paixão geradora.

Através da livraria e, em torno dela, fui construindo um verdadeiro centro de referência da Bossa Nova. Em 2008, ano do cinqüentenário da Bossa, demos personalidade jurídica ao CRBN. A partir de então, todas as realizações informais da Livraria passam a constituir, formalmente, o material de trabalho do CRBN, em cujo Projeto a TOCA é a Livraria de Música. E pedra fundamental.

Se eu fosse um poeta, diria que a TOCA é MEU POEMA; se eu fosse um compositor, diria que a TOCA é MINHA CANÇÃO; se eu fosse músico, diria que a TOCA é MEU CONCERTO; sendo operário, eu digo que a TOCA é MINHA CONSTRUÇÃO.

Em 1994, a TOCA editou e publicou o livro do Centenário do Bairro: o excelente VILLA IPANEMA. E, no mesmo ano, meus filhos (pioneiros em tocar a TOCA) trouxeram à luz um Projeto em formato tablóide chamado JORNALZINHO. Um total de 10 edições, cada uma das quais dedicada a um ícone. RONALDO BÔSCOLI foi o número zero.
A TOCA editou e publicou também, na mesma época, um emocionado trabalho escrito pelo secretário do grande comandante da Bossa. Não abri mão de escolher o título : RONALDO BÔSCOLI : O SENHOR BOSSA NOVA.

B.V.:A Bossa Nova possui grandes nomes que marcaram época, por que homenagear Vinicius ?

C.A.A.: Seu espanto está cobertíssimo de razão. Minha própria visão ortodoxa de Bossa Nova sinaliza claramente, desde sempre, com a precedência de alguns nomes-arquitetos e até de alguns nomes-engenheiros da Bossa. Confesso para você o seguinte: na química desta decisão, houve uma forte carga emocional acumulada ao longo de muitos anos e multiplicada naquele 1993, pela insensibilidade do mercado... Enfim era momento de muita, muita emoção... Eu não teria dificuldade alguma para inventariar algumas razões objetivas para a escolha, mas o emocional, realmente, prevaleceu. Discorro fartamente sobre isso no livro que preparo para mais adiante. Antecipo, em suma, que aquele instante, quando criei a TOCA, era bem diferente dos nossos dias. E isto pode ser o ovo de Colombo, o óbvio que ninguém considera.

Minha circunstância era diferente e a circunstância Vinicius, completamente diferente de hoje. De tal forma queDigo prá você que, o nome Vinicius, para mim, não era uma homenagem, mas uma bandeira que este seu admirador levantou para responder ao ao mercado, em 1993. Tenho orgulho da decisão que tomei. Meus íntimos, também. E estiveram sempre ao meu lado nesta luta sem fim contra os moinhos. Uma luta em que só os quixotes e os moinhos não mudam de lado. Mas você tem toda razão: Bossa Nova é, antes e acima de tudo a música do músico. João Gilberto, Tom Jobim, Newton Mendonça, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Durval Ferreira, Maurício Einhorn, João Donato, Johnny Alf, Leny Andrade (que tem um instrumento na garganta) estão em mim, com Bôscoli comandando tudo e ainda arrumando tempo para escrever que o "RIO É SOL, É SAL, É SUL"... Mais Bossa que isso só no "FOTOGRAFEI VOCÊ NA MINHA ROLLEYFLEX"

B.V.: A escolha do endereço da Toca (Rua Vinicius de Moraes) foi proposital?

C.A.A.: Não. O primeiro alvará da TOCA foi no mesmo quarteirão em que estamos hoje, mas não na mesma rua. A TOCA nasceu como pessoa jurídica numa galeria da Visconde de Pirajá. E ali permaneceu durante os dois primeiros anos. Só em meados de 1995 é que a TOCA veio para a Rua Vinicius de Moraes. Tudo que queríamos era trocar a galeria pela rua. O resto foi oportunidade.

B.V.: Como conseguiu reunir um acervo tão rico sobre a música brasileira, especialmente sobre a Bossa Nova ?

C.A.A.: Pra início de conversa, a fórmula básica é ter legitimidade diante de quem te doa e coragem diante de quem te vende. Na verdade, meu acervo representa meu assunto : Bossa Nova + Ipanema + Rio. Algumas peças eu tive que comprar, inevitavelmente. Grande parte recebi como doação. Nenhuma dificuldade. O resultado mais do que lógico do trabalho e da legitimidade. Sei que ninguém me doaria uma camisa do rei Pelé (apesar de minha paixão por futebol). Em contrapartida, dificilmente alguém doaria o 78 RPM do Chega de Saudade para o Museu do Futebol, com toda a idoneidade que tenha (se existir).

B.V.: Que tipo de pessoas passam pela Toca e que tipo de material sobre a vida e a obra de Vinicius de Moraes está disponível?

C.A.A.: A TOCA é frequentada por amantes da música - especialmente da Bossa Nova, é claro - de todas as raças, credos, gerações e lugares. É meu instrumento de articulação com o segmento bossanovista da grande sociedade humana.

Agora, você, muito gentilmente, está me dando oportunidade para divulgação de minha pequena livraria. E eu te agradeço muitíssimo. Precisamos sempre desse tipo de ajuda, mas, a bem da verdade, a obra de/sobre Vinicius de Moraes está em toda e qualquer livraria da cidade.

B.V.:Fale um pouco sobre a Calçada da Fama de Ipanema.

C.A.A.: Outra paixão. Meu saudoso amigo Caio Mourão escreveu em seu PRATA DA CASA que eu era o único sujeito que gostava mais-que-ele da Calçada da Fama. Ela completa 40 anos agora em agosto de 2009. Para mim, é um dos mais representativos monumentos de Ipanema, pois o bairro é jovem (115 anos) e a Calçada da Fama de Ipanema reúne mãos centenárias, elas mesmas escultoras do próprio monumento. Neste momento, em 24 de maio de 2009, estamos na 75ª placa. Chegaremos a 100 placas. A linda estrutura do momumento é uma concepção do Arquiteto Paulo Casé.

B.V.: Você chegou a conhecer Vinicius pessoalmente ?

C.A.A.: Não. Jamais estive pessoalmente com Vinicius de Moraes. Eu o vi muitas vezes, na rua, no botequim, num restaurante, num show, mas nunca falei com ele. Muito mais tarde, quando li que ele se "livrava dos chatos, se desligando", eu pensei:"como foi bom não ter corrido esse risco". Acompanhei Vinicius a distância, mas sempre cuidadosamente. Entrei mais fundo na vida dele em 9 de julho de 1980. No dia de sua morte. Não esperava sentir como senti. Não esperava mesmo.

B.V: Ao longo de sua vida, Vinicius teve muitas faces: foi poeta, crítico de cinema, diplomata e etc. Dentre essas faces de Vinicius, há alguma que admira mais ?

C.A.A.: Vinicius de Moraes tem textos lindos, letras de canções fantásticas e histórias muito engraçadas. Gosto muito de tudo isso, mas a determinação dele - para mim - fez a diferença.

B.V.: Qual a importância de espaços culturais como a TOCA para a música brasileira e para os poetas e compositores da atualidade ?

C.A.A.: Toda livraria é um espaço cultural. A TOCA, sem dúvida, presta um importante serviço à cultura. Isto é público. Não tenho, entretanto, qualquer pretensão de cumprir este valioso papel junto aos novos valores. É imprescindível que se faça, mas está completamente fora de meu alcance. É preciso que alguém apareça. E rápido.

B.V.:Para você o que Vinicius de Moraes representa na história da música e da poesia brasileira?

C.A.A.: Amplio ao âmbito geral da cultura brasileira seu perfil de permanentemente atual, tal como reconheceram Mário de Andrade, que, diante de seu "TOMARA", se entusiasmou e o convidou para tomar de sua "CANINHA" e Sérgio Cabral, que ouviu dele um dos pioneiros usos de "BARATO" como sinônimo de muito bom. Eu tenho mais de um Poeta e mais de um Letrista. Mas ele foi o meu grande 'barato'.

B.V.: Atualmente, existe alguma programação especial na TOCA?

C.A.A.: Realizaremos o 2º ENCONTRO BOSSA NOVA - RIO em julho próximo.



Para conhecer esse incrível lugar, onde a música brasileira reina absoluta, a Toca do Vinícius fica na Rua Vinícius de Moraes,129/ loja C e o telefone é: 2247-5227. Você ainda pode visitar o site e o Blog Toca do Vinícius, basta acessar: www.tocadovinicius.com.br http://blogdatocadovinicius.blogspot.com para ficar por dentro de novidades e saber mais sobre o local e eventos.